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domingo, janeiro 12, 2014

Num despertar de música, assim fiquei eu, tão nua de preconceitos, que eu própria me vislumbrava num momento muito próximo dentro do nosso futuro. Abrangias-me o abraço dentro do teu abraço como se já não faltasse mais nada para ser plena a realização da imagem. Entretanto, os cheiros misturavam-se e os corpos contorciam-se. Contei-te ao ouvido que já pensava em escrever descrevendo, mas ainda não o tinha feito e para te provar que as minhas palavras nao sobrevivem de tristezas, aqui te beijo, aqui te quero.

Pronome

Numa noite destas, uma qualquer, o Calor despiu-me e divertiu-se observando a minha pele cada vez mais gasta pelo luar... Entretanto, a brisa chegou e assim me tapou, como se tapam as vergonhas de tempos passados. Gostaria de usar a palavra nós. Ousá-la mesmo, proferida pelos teus lábios, com a minha boca. Os nós da gaganta adensam-se e sonho com o pronome tão pessoal, tão plural, como aquela música que bailei sem preconceitos. Está bem, cortemos o silêncio com o arfar da nossa respiração suprimida num sonoro resplandecer, numa coisa qualquer que me faça renascer e seja um deleite como nas palavras.

Secreto

Tu ainda não sabes, ninguém sabe, nem eu sequer quero ter essa informação, mas de vez enquando lá me apareces num pensamento qualquer. Inexplicável. És um silêncio a andar de mota enquanto uma guitarra lambe as asas de um sonho. És um negro saboroso, enquanto nos tornamos numa noite cúmplice. És beijo saboreado por entre torres e portões. És letra para a minha canção, enquanto brota a chuva de baixo para cima, como se quisesses ser cúmplice do rio. Obrigada pela partilha, por elas, que se tornaram com aquela naturalidade, que és tu. (Em segredo.)
Ainda que eu soubesse que não valeria a pena escrever a branco, fui, acreditando, manhã fora, mas no meio de Energúmenos que não franziam o olhar com exatidão, encontrei-me sentada numa cadeira vermelha, onde perdia meia hora dada sem ser oferecida. Será que haverá ainda humanos por aí?! No final, haja quem ainda se lembram de me cortar o dia com exatidão para que a rotina se esvaia. Então, quis lembrar-me um pouco do sonho de uma noite de sexta entre o abismo de um beijo passado e uma dança com o homem que não quero meu. Estranho seria ficar parada à chuva, quando ela não me mostrou mais do que sons e palavras, toques e sumos de ser. E, por isso, fomos uma só, eu e a cidade. Então, ela mostrou-me que ninguém irá reparar em mim. Somos uma só, onde figuro só porque sim. Chego a casa, choro. Parto para o vazio, preenchendo-o com vasta atenção, vaga recuperação, até que tenho a prova que mesmo que não fale, algo terá mesmo que acontecer só para que não me chegue o dito, o cujo.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

A Queixa

Lamentar aquilo que não temos é desperdiçar aquilo que possuímos, afirma um antigo provérbio chinês, lembrando que esta máxima é válida para situações ou coisas, sentimentos ou posições sociais. O problema da queixa é que ela vai construindo uma personalidade naquele que usa da lamentação, como uma máscara sobre sua postura natural. Com o passar do tempo se permanecemos fazendo uso da queixa, ela é incorporada pela nossa postura natural que passa a ser queixosa. Uma vez que absorvemos a lamentação em nosso patrimônio comportamental ela, a queixa, começa a se exteriorizar através de nossos pensamentos e nossas palavras, passando assim a ser nossa característica pessoal, nossa marca. Este processo é perigoso pelo fato de que muitas vezes ele ocorre de maneira inconsciente, por automatismo. Reclamamos seguidas vezes, independente de termos razão ou não, e o que inicialmente é uma escolha ou um ato involuntário, torna-se um hábito. Desde a antiguidade, Sócrates asseverava de que somos escravos do hábito pelo fato de que ficamos presos àquilo que fazemos repetidas vezes. Por este fato, constantemente, aquele que reclama da vida ou das situações impostas por ela, não percebe que age assim pois reclamar passa a ser uma segunda natureza do indivíduo. Geralmente quando alguém diz a outra pessoa que ela reclama muito, que queixar-se passou a ser comum nas suas expressões, ela assusta-se crendo ser absurda tal situação. A reclamação é sempre uma surpresa àquele que a possui e que acabou por condicionar-se a ela.