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segunda-feira, agosto 30, 2010

Há-de chegar um dia...

Há-de chegar um dia...
em que a noite romperá o céu com rasgos de luz,
anunciando o fim inevitável de todas as coisas.
Há-de chegar um dia...
em que o vento se arrastará indiferente ao que fica para trás
e a luz, trémula, encolhida perante o seu bafejar,
se apagará.
Há-de chegar um dia...
em que a imagem que vê no espelho se curvou aos anos
e já não se reconhece naquilo que foi noutros dias.
Há-de chegar um dia...
em que a velhice se cola na carne, entranha nos ossos e rói a alma,
deixando em seu lugar pequenas memórias desordenadas
daquilo que já não é.

Há-de chegar esse dia.
Quando não houver mais em que acreditar.

O medo do medo.

Ontem adormeci pequenina e hoje acordei encolhida em mim mesma.
Tolhida pelo medo. Como um pássaro assustado que nunca voou ou que tem de voltar a voar depois de uma queda na qual partiu uma asa.
Hoje acordei pequenina mas grande demais. Cheia de incertezas corroedoras da alma e medo... aquele medo... O que chega quando já toda a gente se foi embora. Aquele que se senta no nosso colo, quando a casa está vazia e a única coisa que a enche é o silêncio, tantas vezes desconfortável, de quatro paredes.
Nao tenho medo por hoje... mas temo pelo que virá, um dia. Tremo por dentro. Tenho receio que este silêncio não passe e, em vez de uma visita indesejada, se torne num inquilino a tempo inteiro. Receio que as pessoas se tornem apenas sombras que não mais reconhecerei e eu passe a ser a sombra de mim mesma.
Tentarei não pensar mais nisso. Não penso mais nisso. Por ora.
O medo fica instalado aqui, bem escondido. O medo do medo. O medo de envelhecer. Sozinha. Em silêncio

sexta-feira, agosto 06, 2010

Amanhã

Amanhã irei conhecer-te e desse dia adiante as linhas do teu rosto ficarão imprimidas em mim. Ouvirei o som da tua voz, e de tão familiar que me irá soar, será a única coisa que me tirará a calma quando te chegares a mim ou me acalmará quando mais preciso. Saberei que eras tu quem esperava para dizer o que nunca foi dito. Sem o nunca esperar, amanhã serás tu quem me vai fazer viver.

Amanhã, quando te beijar pela milésima vez, embora pareça sempre a primeira, saberei que não será a última. Trarei o teu sabor para me lembrar de ti nas tuas horas ausentes. Continuarás a assustar-me, porque de tanto que te vou querer, o mesmo tanto que temerei por te perder. Os planos não serão feitos porque têm de ser feitos, mas sim porque nos será necessário. Discordarás de mim, enervado, para que eu te sorria ainda fascinada pela forma como te irrito. Seremos vítimas da nossa impetuosidade quando, chegados a casa, o caminho entre a porta de entrada e o seu interior será demasiado extenso para nos aguentarmos. Botões saltarão, risos e gemidos ecoarão pelas paredes da nossa casa quando me encostares a cada uma delas.

Amanhã de manhã, quero que acordes com o cheiro a café que estarei a fazer na cozinha, de pés descalços no chão frio, lembrando-me que é Inverno, e terás o cuidado de me acautelar que me poderei constipar. De lâmina em punho irás desfazer a barba com a porta entreaberta para que eu te possa olhar. Beijarei a tua face macia enquanto te ajeito o colarinho da camisa. Amanhã, quando eu for a mãe dos teus filhos, continuarei a acordar mais cedo do que tu para vos olhar e pensar no dia em que escrevi tudo isto, nunca julgando que se iria concretizar, mas desejando-o.

Amanhã, mas só amanhã. Hoje continuo sem dormir; tu ainda não estás aqui; ainda não me imaginas tua mulher nem a mãe dos teus filhos. Amanhã, vamos esperar por amanhã.