-Erro? Que erro? De que estás a falar, disse em sobressalto enquanto abria a porta do carro
-De ires assim, sozinha fazer mais de 200 quilómetros, ires atrás de uma pessoa que ao que parece não te liga nenhuma, nem esperou para ir contigo...Já pensaste que tens vivido a vida dele e não a tua?
-Bernardo acho que estás a falar do que tu próprio tens feito á vida da Helena, tens feito com que ela viva a tua vida, e se não te importas e não querendo de forma alguma ser indelicada contigo, não me atrases por favor...Disse enquanto fechava a porta do carro.
-Ouve...dizia ele batendo no vidro do carro...Se precisares de alguma coisa liga-me...eu na próxima semana vou estar no Algarve num Evento a convite da Ordem, por isso liga-me...
Inês olhou para ele com ar suspeito e perguntou
-Tanto interesse em saber de mim agora porquê? Sempre me detestaste, sempre achaste que eu não era uma pessoa com juízo, entre outras tantas coisas...esse interesse em saber se estou bem ou mal vem a que propósito?
-Acho que comecei a aceitar o facto de a Helena gostar tanto de ti e de eu.....Parou....Olhou para o carro que passava a alta velocidade e disse:
-Bem vai lá...Tem uma boa viagem.. é tarde!
Inês fechou o vidro trancou as portas do carro ajeitou o cabelo para trás, olhou para o Bernardo que se afastava em direcção ao carro dele e pensou em voz alta:
-Que estranho este Bernardo...Será que ele desconfiou de alguma coisa? Será que sabe da verdade?....PÁRA, PÁRA INÊS...Foi «um acidente mas acidente este que te destruía a vida se não tomasses esta atitude...a única que te resta! Bem seja o que Deus quiser!
Tinha iniciado uma viagem contra o tempo. Sabia que tinha de chegar rapidamente ao Algarve, tinha de se desfazer do corpo do João o quanto antes, sabia inclusive que a poucas horas o corpo iria começar a criar cheiro.
*****
-Sabes Bernardo, hoje fiquei muito preocupada com a Inês: Disse Helena enquanto se acomodava no ombro de Bernardo.
- Sim realmente, ir sozinha só porque o João resolve ir com um amigo, acho isso uma falta de respeito para com ela. Respondeu Bernardo
Helena olhou-o com surpresa...
-Estás a falar a sério? Perguntou?
-A sério...como assim a sério...
-Sei lá, dizer estares preocupado com a Inês.
-Falo da Inês porque é da Inês que se trata, mas sinceramente isso é uma falta de respeito. Tentou explicar Bernardo de forma a não parecer também ele preocupado.
*****
Inês sentiu um frio na barriga quando pensou no que tinha acontecido, em menos de doze horas tudo na vida dela tinha mudado, o mundo dela deixaria de ser real.
A viagem tinha feito ela repensar em tudo o que havia acontecido, nas últimas palavras de João ao assumir a sua homossexualidade, da forma como viveu os últimos anos com ele, sem sexo, sem se sentir amada, os momentos que se dedicou a ele e ele no entanto ainda que a respeitasse em casa, por fora certamente mantinha uma vida sexual activa, amava e era amado...
-Que burra! Pensava ela em voz alta. Que burra que fui...como pude amar-te tanto João...como fostes tão injusto comigo...Nem consegui ter uma família minha...E as lágrimas voltaram a cair.
Aproximava-se do local onde seria o Posto de Abastecimento do amigo do João e sabia que naquele momento teria de encarnar um personagem, sabia que dali em diante nada seria igual...iria viver uma mentira para salvar a própria mentira dela.
Saiu do carro, ajeitou a saia e foi em direcção á loja de conveniência do Posto de Abastecimento.
*****
-Boa Noite, disse olhando para o funcionário que se encontrava sentado atrás do balcão a ler uma revista
-Boa Noite. Disse levantando-se apressadamente
-O Senhor é o proprietário da Loja?
-Sim, sim sou, mas se me vem tentar vender alguma coisa não perca tempo que eu infelizmente neste momento não posso comprar nada.
-Não, Não lhe venho vender nada, sou a Inês a esposa do João Alves. Disse estendendo a mão para cumprimenta-lo
-Ai sim? Então e ele não entrou porquê? Perguntou ele enquanto tentava observar pela janela o carro.
-Ele veio para cá primeiro que eu, com um vosso amigo comum, e ficou combinado encontramo-nos aqui. Disse Inês
-Ai sim, aí o João já está cá? Não sabia minha senhora, ele pelo menos aqui ainda não apareceu nem me ligou, e com que amigo veio ele? Perguntou o rapaz
-Sinceramente não me disse o nome, apenas me disse que viria com esse tal amigo... que estranho, disse Inês, vou tentar ligar-lhe para ver se está atrasado, tem telefone aqui para não ir agora ao carro buscar o meu?
-Tem ali aquele de pôr moedas, mas pode ligar do meu se preferir. Disse-lhe o rapaz gentilmente
-Sim, vou aceitar, assim o......
-André.....
-O André aproveita e fala com ele. Disse ela enquanto aceitava o telefone que o rapaz lhe entregava.
Marcou o número e deixou que o telefone tocasse várias vezes, até entrar na caixa de mensagens
-João, é a Inês, cheguei, vim ter á loja daquele amigo que falaste como combinado, como não estás, vai ter por favor a casa da Helena. Até já...e desligou...
-Fica com o numero dele ai no seu telemóvel caso queira contacta-lo.Disse Inês entregando o telefone ao rapaz
-Eu tinha o número dele ali na agenda, mas possivelmente já nem será o mesmo! Respondeu o rapaz enquanto memorizava o número no telemóvel.
Nota:Este texto não está revisto ortográficamente nem está de acordo com o novo acordo ortográfico.
