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Parte 4


-Obrigado.
Deu-lhe um sorriso maroto e saiu.
Helena sentia-se envergonhada pela forma como Bernardo tratava a sua amiga.
-Desculpa Inês, desculpa o Bernardo, ele por vezes nem se dá conta que é desagradável.
-Deixa lá, não podemos agradar todos e nem todos tem obrigação gostar de nós. Disse, sabendo ao que se referia na realidade.
O almoço decorreu como previsto, falaram do João das Ferias do passado, do presente e tentaram imaginar o Futuro, mas esse estava longe ainda.
*****
Inês entrou em casa pensando que João ainda estivesse a trabalhar, no entanto reparou que ele estava numa conversa muito animada através do Skype...Ao ver que ela tinha entrado desligou apressadamente a videoconferência que estava a ter.
-Nem te ouvi entrar Inês. Disse a recompor-se ainda do susto de a ver
-Assustaste-te foi? Ironizou
-Claro! Não estava á espera de ter ver em casa tão cedo, senti passos em casa é normal que me assuste. Levantou-se em direcção a ela beijando-lhe a testa.
-Desconhecia esse teu gosto pela comunicação virtual.
-Estava a falar com um amigo que não o via á muito tempo, e hoje encontrei a irmã dele lá no Ateliê e ela deu-me o contacto dele e disse-me que ele está a trabalhar no Algarve, tem a exploração de um Estabelecimento de Abastecimento próximo da casa da Helena.
-A sério? Perguntou Inês sem saber se deveria ficar contente ou triste. Se por um lado era motivo para o fazer ir de férias com ela, ter lá um amigo seria motivo de borgas e noitadas na certa!
-Sim, já viste como este mundo realmente é pequeno, ele tem o Estabelecimento mesmo na Vila para onde vamos.
-Há! Então vamos? Perguntou ela sem saber que ele tinha já tinha tomado a decisão de ir.
-Sim, durante a manha pensei bem e acho que vai ser bom e muito positivo esta nossa ida, existem coisas que precisamos esclarecer sobre nós, e que faz sentido ser longe daqui. Disse-lhe passando a mão no rosto e continuou:
-Sabes, o que mais me custa nisto tudo é saber que todos os dias tu sofres por minha causa. Disse
-Sofro porque te amo e nem sei se tu ainda me amas, sofro porque tenho as necessidades que qualquer mulher tem, mas que não as vejo satisfeitas...
-Eu sei...interrompeu ele a lista de reclamações dela e continuou dizendo – Existem coisas que se têm vindo a passar comigo que não partilhei com ninguém, existem fases na vida de cada um, que a necessidade de espaço é tão grande que nos tornamos egoístas com as pessoas que estão próximas de nós.
-Mas estás doente João? Perguntou Inês já a pensar no pior
-Não sei se poderei chamar doença, nem sei se caminho para a cura, ou mesmo se quero a cura da doença que possa ter...
-Que raio de coisas que estás tu a dizer! Não consigo entender nada dessa tua poesia filosófica!

-Inês vamos pensar nas Férias então, que essa era um prioridade para ti, vamos aproveitar para sair daqui por uns dias, tentar ver em que ponto está a nossa relação e principalmente se tem pernas para andar...
-Pernas para andar! Disse Inês sentando-se na cama para tentar não cair com o que acabava de ouvir. – Pernas para andar João...Quer isso dizer que poderemos a estar a caminhar para o fim?
João olhou-a como se desejasse não ter de a magoar, mas a relação deles realmente não poderia continuar, porque ao continuar era estar a tornar mais difícil a vida dos dois. E disse:
- Inês, durante estes quase...parou para pensar nos anos
-Cinco anos. Disse ela
-Isso, cinco anos, e continuou...Metade destes cinco anos, tu foste minha amiga, minha parceira minha irmã a minha mulher, a outra metade do tempo tu fostes uma companheira paciente e muito dedicada e não se trata de........
São interrompidos pelo toque do telemóvel do João que ao olhar para o visor viu se tratar do número do ateliê, fez sinal a Inês que esperasse porque iriam continuar a conversa.
Inês manteve-se quieta, sentada na cama observava os movimentos do João e a forma como ele tentava deixar tudo organizado para que ninguém necessitasse interrompe-lo nas férias, a forma como gesticulava as mãos enquanto falava era típico da ansiedade que tinha em desligar. Assim que o fez voltou novamente a olhar para Inês que se manteve no mesmo lugar...
-Onde íamos...disse ele
-Nos anos que estamos juntos.respondeu com a garganta seca.
-Vou-te confessar que, das coisas que mais me orgulho na vida foi de ter conhecido uma mulher como tu, mesmo que por vezes sejas quase impossível de aturar e de teres os teus devaneios e excessos, tu realmente és uma óptima companheira és uma guerreira e orgulho-me ser amado por ti...
Inês salta da cama em fúria:
-Sim, e essa merda é para dizeres o quê? Que sou tudo isso mas que não sirvo mais, que nem para me foderes sirvo, sim, porque já nem sei a ultima vez que tentamos e mesmo nessa fraca tentativa não te consegui excitar ...Dizia ela completamente descontrolada!
-Sou Gay Inês, respondeu ele baixinho.
Ela sem ter ouvido o que ele tinha dito continuou – Que te orgulhas de seres amado por mim que sou a companheira...e o resto? E o resto que preciso?
-Inês, acalma-te e ouve o que te digo...O problema não és tu, o problema sou eu, o problema sou eu que sou Homossexual, sempre fui mas sempre tentei pensar que não o era, o problema sou eu que não te consigo amar da mesma forma que tu....
-CHEGA! Chega de arranjares desculpas para dizeres que acabou, não te humilhes dizendo que és paneleiro, chega de merdas de desculpas João...chega!!! Disse batendo a porta do quarto.
-Espera Inês, ouve-me...Disse saindo atrás dela


-Deixa-me em paz, se és Gay vai lá ter então com gajos iguais a ti, que mentira João, que mentira que me fizeste viver este tempo todo! Dizia com o rosto cheio de lágrimas.
-Espera Inês ouve.....Disse enquanto segurou-lhe o braço para a fazer parar.
-Deixa-me disse ela...soltando o braço violentamente e com o dedo indicador direito a ele disse:
-Se me voltas a pôr a mão em cima mato-te cobarde!
Ao tentar segura-la de novo para que pudesse explicar-lhe tudo de novo e o porquê de como tudo havia começado, Inês empurra-o com a intenção de o afastar no entanto ele não consegue controlar o equilíbrio e cai da escada, só parou quando embateu fortemente contra a parede.
Inês pálida e imóvel no cimo da escada olha com a esperança que ele se levante em seguida, mas os segundos parecem minutos e os minutos horas e realmente ele não se move!
-João...Disse com voz trémula...Levanta-te...
Foi descendo as escadas lentamente com a esperança que ele tivesse desmaiado com a queda, ajoelhou-se e continuou a chama-lo
-João...Estás a ouvir! Chega de brincadeira João por favor...E enquanto dizia estas palavras tentava pô-lo de barriga para cima.
-João...ouves-me...acorda!Vai dizendo ela ao mesmo tempo que lhe dá pequenas chapadas na face.
Põe o ouvido no peito aperta-lhe o pulso e nota que a ausência de pulsação é definitivamente uma verdade....
-HAAAAAAAAAAAAAA que fui eu fazer!!! Está morto, não, não pode ser...João não! Acorda merda!!!
Pôs as mãos na cabeça e andou ás voltas á mesa que se encontrava na sala....E agora...estou perdida...vou presa...vão me acusar de o ter morto...estraguei o pouco que restava da minha vida!!!
Olhou novamente para o corpo do João, sentou-se na cadeira e começou a delinear um esquema macabro.
-Atende. Atende. Dizia enquanto marcava o número de Helena.
-Sim...respondeu Bernardo do outro lado...
Inês fez uma pausa antes de falar:
-Bernardo, desculpa incomodar mas precisava falar com a Helena.
-A Helena neste momento não pode atender, está no outro telefone com uma cliente...Mas estás bem, perguntou...
-Gostaria de ir hoje para baixo, o João conseguiu acertar tudo no ateliê, eu também tenho tudo organizado por isso gostaria muito de ir ainda hoje até porque ele já foi com um amigo para baixo.
-Então mas a Helena não te deu a chave?
-Sim, ela deu-me a chave, mas disse que ainda tinha de falar com a senhora que limpa a casa...
-Não creio que isso seja um problema, se queres ir, podes ir que depois a Helena avisa a D. Maria que vocês já lá estão. Mas estas mesmo bem? Insistiu ele
-Sim Bernardo, estou bem. Dadas a circunstancias da minha vida neste momento e da minha relação estar num ponto que nem sei se ainda existe relação. Estou bem!    
A vontade de lhe dizer que se o tivesse escolhido a ele teria sido bem mais feliz era mais que muita, mas apenas lhe desejou boa viagem e umas excelentes férias!

 Nota:Este texto não está revisto ortográficamente nem está de acordo com o novo acordo ortográfico.