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quarta-feira, julho 21, 2010

A lua vai alta

São palavras os beijos que te quero dar.
Inebriadas de amor e confusão.
Confusão própria de quem não sabe o que é
ser dois e ser um. Confusão de amar.

São palavras os afagos com que te embalo
as noites mal dormidas.
Os sonhos apagados.
Os olhos fechados a tremerem.

São palavras que semeio entre nós
quando me entrego totalmente
e esquecemos o mundo lá fora.

São palavras que deixo a teus pés
quando me afasto e percorro os meus próprios
caminhos.

São palavras que uso para aceder
à tua mente, ao teu mundo, ao teu espaço.


De noite, entrego-me por completo. Dispo-me de preconceitos e inseguranças e sou tua. Nessas noites, não existem palavras. Simplesmente, não existe nada para além do teu sorriso, para além dos teus sons, do teu perfume, da tua existência que me enlouquece.
De noite, não existem palavras.
Não existe mais ninguém para além de nós dois, dos nossos lençóis, a nossa cama, o nosso espaço.
De noite, sinto-te vaguear pelo quarto.
Ouço os teus passos inquietos e sei, eu sei, que na tua alma se revolve uma bola imensa, um vazio, um negrume que afastaste por mim. E que eu engoli para ti.


A lua já vai alta e o teu sono não vem.
Amanhã falaremos palavras sem sentido que não poderão dar cor às nossas noites.
Porque o amor, querido, não se canta.

Demanda


Onde te vi, não sei.
Sei apenas que agora resta um silêncio imenso onde antes reinava um Sol, O Sol.
Onde te deixei... não me perguntes.
Sei apenas que agora estou aqui, sozinha. Não quero sequer que venhas.

Onde estás tu, pergunto-te... Pergunto-me também onde começou a demanda louca pelo amor... Onde o engano... Onde o degredo imenso que se abateu na minha vida.

Onde estás tu?


A fada deita-se suavemente numa cama de pétalas azuis e repousa... Acabou aqui o sonho que nunca o foi.

Porque só tu és tu


Porque todos os homens que me quiseram e me amaram não eram tu.
Porque todas as mulheres que possam alguma vez ter beijado os teus lábios não eram eu.
Porque o Sol amanhã nasce mais cedo.
Porque és tu que me despes de alma e corpo e me conheces todos os segredos.
Porque te olho e te abraço de manhã e a seguir me aninho na tua almofada.
Porque és o meu sorriso, a minha felicidade, o meu sonho.
Porque só tu és tu.

Digo-te: amo-te.

quarta-feira, julho 14, 2010

Além

Irei mais além. Ali onde a luz dos teus olhos não chega. Onde, agora despidos sob o luar, cobertos de pó e teias de aranha, outrora retratos repousavam naquele jazigo. Ali, onde tudo quanto reluz é apenas um reflexo, bem tomado, firme, do que um dia fomos, claridade. Cruzarei metas, banhada em suor, sangue e lágrimas. Partirei à descoberta, onde outros desistiram, de caminhos para o teu interior. O trilho, não sei se sei, se soube nunca saberei. Quando te mostras negro, de tão negro que estás, iluminas os incautos que se perdem em teus meandros. Astuto, apenas para te alimentares das suas almas. Pobres de quem, crédulos da tua bondade em palmas, se caem a teus pés. Pobres, tão pobres...
Julgam-te fé, sabedoria e paz eterna. Essa eternidade que não possuis, ainda assim te julgam para sempre, desde sempre. Pobres, como eu. Perdida entre os teus dedos. Escorro-me entre eles, como areia fina. Perdes-me agora, uma e outra vez. Somente para me colocares no altar, ali, além. Veneras-me, seu pobre. Fazes de mim eternidade. Esta eternidade que trago aqui, além. Dentro de mim, soberba.

Pedir-me-ás mais uma vida. Que te viva, aí, além, dentro do teu peito aberto, despojado de qualquer coisa que o faça fraco, tão fraco. A ele me encostarei para ouvi-lo rouco como um dos nossos gemidos sussurrados pela escuridão da noite, quando me tocas, quando nos tocamos. Exigir-me-ás que te faça respirar por entre os meus lábios, que te dê cor através dos meus olhos e de beber pelas minhas mãos. Pedir-me-ás que te veja por entre o tecido que te envolve, a solidão, que o rasgue com os meus dedos. Dedos que te conhecerão todos os dias de novo pela primeira vez, hoje, amanhã e depois. Implorarás que te mate aqui, no meu peito e além, entre as dobras do meu ser quente.
De joelhos suplicarás para que te consuma, como o fogo que lambe a querosene deste soalho, queimando as películas do que um dia seremos. A Quimera dos amantes. Perder-me-ei entre os recantos do teu ser, viajarei pelas tuas veias num fátuo momento, nosso. Como um magnete, me atrais, para me voltar a pisar, e eu, louca de tão pobre de ti, me deixo, me dou, me arrolo nesse teu ínvio coração. Fechado, apenas para mim.
Vivo sob o Sol que me cresta a pele, essa que dizes imaculada, tão pura, demasiado tua, fria ao toque. Tão demasiadamente morta.

Amam-te, dizem, viradas para Norte, de olhos fechados, sem nunca perceberem que(m) veneram. Sem nunca te (tar)dares, sem nunca calares essa cantiga dentro de ti, toada a sons monocórdicos, na corda, além, na tua linha labial, entre os meus dentes. Sinto-te o sabor férreo do sangue e a doçura dura do teu olhar a percorrer-me a linha das costas, como o fazes, na minha desnuda pele, com a ponta dos dedos.
Amordaça-me nas tuas palavras atiradas contra o meu peito, sem cuidado, afiadas para me machucarem, criadas para me amar odiando-me.
Odeia-me.
Ama-me.
Sem (in)diferença.

segunda-feira, julho 05, 2010

Sogno

A realidade sempre foi mais fria que o sonho e as cores fortes da ilusão.
As cores com que embelezei a tua pele, vesti o teu corpo.
Recriei-te em mim e em mim não podias jamais ser outro
que não o homem mistério-eternidade.
O menino pertença-abismo.
Do teu sorriso recriei um arco-íris.
Das tuas mãos recriei todo um abrigo.
O espaço onde escondi todos os meus segredos
e evidências. De ti renasci e morri todas as noites
e todos os dias, marcada pela doença e pela intensidade
das emoções. E o tempo deixou de ser tempo.
E a terra deixou de ser terra.
E o dia nasceu em que os meus olhos não te reconheceram.
Em que os segredos te brotaram das impaciências
e vieram morrer-me aos pés, secos, negligenciados.
Era eu a fitar-te. Era Ela. Ela, que é imensa e fria.
Que tem olhos de fénix. Que tem asas de demónio.
Ela, que perfurou a ilusão com que te vesti e eras tão tu,
ali, tão banal, tão humano?
O coração estilhaçou-se-me em mil pedaços, a tua voz
a afirmar que é tudo normal, que noutros mundos,
outras mulheres também geravam desinteresse.
E o meu coração estilhaçado, ela altiva a observar-te,
a rir-se, a achar tudo tão ridículo, a murmurar-me que afinal
tu sempre foste apenas mais um pássaro a esvoaçar
dentro de uma gaiola. A tua mente curvada
perante o peso imenso da sociedade. E o meu coração,
que é Dela também, estilhaçado, a sorrir-se de aborrecimento
e nojo. E a alma acordou, esticou os filamentos entorpecidos
como quem acorda de um sonho demasiadamente longo,
a alma acordou, segurou o coração estilhaçado e eu entreguei-me
a Ela. E com os seus olhos tudo o que vi foi o comum.
Não me quedarei nua a teus pés,
os olhos sem véus, não mais.
A realidade sempre foi mais fria que o sonho e as cores fortes.
Da ilusão.

sexta-feira, julho 02, 2010

(in)Dignidade indigente de te querer

Quase esqueço o que me trouxe até aqui. Percorro-me entre imagens desfocadas e ecos infinitos tentando perceber se o que tiro daqui, de mim, é algo melhor do que mostro ser. Esgravato-me, esgravato o meu ser como se um toxicodependente fosse, um viciado a ressacar pela próxima dose, invadido de comichões sob a pele ardente, ele coça os braços onde tantas, infinitas vezes se espeta a dar o corpo à libertação das dores que o atormentam. Assim me sulco. Quanto mais escavo nestes túneis mais vontade tenho de o fazer. Passo por fantasmas, pesadelos, medos. Olho-os de cima. Aqui dentro, sou superior a eles, dentro de mim. Sou eu que os comando, atirando-os a um canto. Coloco-lhes trelas e açaimes e passeio-me com eles, por entre as veias. Secas. Torno-me resiliente, imune aos seus ataques. Chego mesmo a pensar que estas sombras não são minhas, porque as vejo numa película a preto e branco.

Quase esqueço o que me trouxe até mim. Quem era antes de me tornar no que me tornei. Preciso, quase, de uma dose psicadélica de emoções para me revisitar e me segredar ao ouvido que aproveite. Aproveita ser princesa, ser mágica, heroína. Aproveita para ser feliz, ser menina. Um dia nada mais serás que um saco de ossos, pele e carne, coberto de capas negras, demasiado pesadas para as suportares. Olho-me ao espelho e não reconheço a mulher em que me tornei, a adolescente que nunca fui e a criança que deixei de ser. Pergunto-me em que momento exacto terei vindo habitar um corpo que não é meu, vivendo uma vida que não estava destinada para mim? Deixo de pensar nestas falhas quando apareces.

Tapa os olhos. Vais ter de os tapar se me quiseres sentir chegar. Não verás as falhas, os teus olhos não se vão encontrar com tudo isto que trago em mim, sujo, morto, negro. Não terás de confirmar o que te digo, que o sorriso me abandonou ainda muito antes de tu chegares. Mantém-me como me tens agora, uma imagem perfeita de uma soberana que nunca reinou. Se o dia vier em que imagens não nos cheguem, será o nosso fim. Será o fim de algo intensamente perfeito, estes momentos.

Sabes aquela vontade de sair? Sair e correr para qualquer lado, correr, correr sem parar, sem saber para o que corres, para onde corres? Assim estou eu. Com este desejo de sair de mim e correr até ti. Até te encontrar. Até me veres, de olhos tapados. Mostrar-te que se não sou eu, não é mais ninguém. Penso em ti e tenho dentro do peito um motor de 110 cavalos no momento exacto que lhe pões o pé no acelerador. Inquietação constante. Esta fome de movimentos, de nunca conseguir estar parada, nunca, nunca. Penso em ti, e já sem sequer o notar, a minha respiração descontrola-se e só me apercebo do facto quando o calor se espalha pelo corpo. Esta temperatura ardente de vontade de arrancar roupas, gritar, correr, correr até ti.

A forma como te quero é indigna. A intensidade com que te desejo, quando discutimos coisas banais, chega a ser imprópria de tão pura que é. Pureza. Desejo no seu estado mais básico, animalesco. Este desejo de me cravar em ti com unhas e dentes, ânsia de te ter a invadir o meu espaço, a transpores o limite imaginário por mim criado para afastar todos. Para ti é apenas mais um desafio, daqueles que se aceitam tantas vezes sem sabermos o que nos espera, sem medo, apenas com curiosidade.

Quero-te aqui. Ali. Em mim. Quero-te tanto...