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sexta-feira, julho 02, 2010

(in)Dignidade indigente de te querer

Quase esqueço o que me trouxe até aqui. Percorro-me entre imagens desfocadas e ecos infinitos tentando perceber se o que tiro daqui, de mim, é algo melhor do que mostro ser. Esgravato-me, esgravato o meu ser como se um toxicodependente fosse, um viciado a ressacar pela próxima dose, invadido de comichões sob a pele ardente, ele coça os braços onde tantas, infinitas vezes se espeta a dar o corpo à libertação das dores que o atormentam. Assim me sulco. Quanto mais escavo nestes túneis mais vontade tenho de o fazer. Passo por fantasmas, pesadelos, medos. Olho-os de cima. Aqui dentro, sou superior a eles, dentro de mim. Sou eu que os comando, atirando-os a um canto. Coloco-lhes trelas e açaimes e passeio-me com eles, por entre as veias. Secas. Torno-me resiliente, imune aos seus ataques. Chego mesmo a pensar que estas sombras não são minhas, porque as vejo numa película a preto e branco.

Quase esqueço o que me trouxe até mim. Quem era antes de me tornar no que me tornei. Preciso, quase, de uma dose psicadélica de emoções para me revisitar e me segredar ao ouvido que aproveite. Aproveita ser princesa, ser mágica, heroína. Aproveita para ser feliz, ser menina. Um dia nada mais serás que um saco de ossos, pele e carne, coberto de capas negras, demasiado pesadas para as suportares. Olho-me ao espelho e não reconheço a mulher em que me tornei, a adolescente que nunca fui e a criança que deixei de ser. Pergunto-me em que momento exacto terei vindo habitar um corpo que não é meu, vivendo uma vida que não estava destinada para mim? Deixo de pensar nestas falhas quando apareces.

Tapa os olhos. Vais ter de os tapar se me quiseres sentir chegar. Não verás as falhas, os teus olhos não se vão encontrar com tudo isto que trago em mim, sujo, morto, negro. Não terás de confirmar o que te digo, que o sorriso me abandonou ainda muito antes de tu chegares. Mantém-me como me tens agora, uma imagem perfeita de uma soberana que nunca reinou. Se o dia vier em que imagens não nos cheguem, será o nosso fim. Será o fim de algo intensamente perfeito, estes momentos.

Sabes aquela vontade de sair? Sair e correr para qualquer lado, correr, correr sem parar, sem saber para o que corres, para onde corres? Assim estou eu. Com este desejo de sair de mim e correr até ti. Até te encontrar. Até me veres, de olhos tapados. Mostrar-te que se não sou eu, não é mais ninguém. Penso em ti e tenho dentro do peito um motor de 110 cavalos no momento exacto que lhe pões o pé no acelerador. Inquietação constante. Esta fome de movimentos, de nunca conseguir estar parada, nunca, nunca. Penso em ti, e já sem sequer o notar, a minha respiração descontrola-se e só me apercebo do facto quando o calor se espalha pelo corpo. Esta temperatura ardente de vontade de arrancar roupas, gritar, correr, correr até ti.

A forma como te quero é indigna. A intensidade com que te desejo, quando discutimos coisas banais, chega a ser imprópria de tão pura que é. Pureza. Desejo no seu estado mais básico, animalesco. Este desejo de me cravar em ti com unhas e dentes, ânsia de te ter a invadir o meu espaço, a transpores o limite imaginário por mim criado para afastar todos. Para ti é apenas mais um desafio, daqueles que se aceitam tantas vezes sem sabermos o que nos espera, sem medo, apenas com curiosidade.

Quero-te aqui. Ali. Em mim. Quero-te tanto...