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quarta-feira, julho 14, 2010

Além

Irei mais além. Ali onde a luz dos teus olhos não chega. Onde, agora despidos sob o luar, cobertos de pó e teias de aranha, outrora retratos repousavam naquele jazigo. Ali, onde tudo quanto reluz é apenas um reflexo, bem tomado, firme, do que um dia fomos, claridade. Cruzarei metas, banhada em suor, sangue e lágrimas. Partirei à descoberta, onde outros desistiram, de caminhos para o teu interior. O trilho, não sei se sei, se soube nunca saberei. Quando te mostras negro, de tão negro que estás, iluminas os incautos que se perdem em teus meandros. Astuto, apenas para te alimentares das suas almas. Pobres de quem, crédulos da tua bondade em palmas, se caem a teus pés. Pobres, tão pobres...
Julgam-te fé, sabedoria e paz eterna. Essa eternidade que não possuis, ainda assim te julgam para sempre, desde sempre. Pobres, como eu. Perdida entre os teus dedos. Escorro-me entre eles, como areia fina. Perdes-me agora, uma e outra vez. Somente para me colocares no altar, ali, além. Veneras-me, seu pobre. Fazes de mim eternidade. Esta eternidade que trago aqui, além. Dentro de mim, soberba.

Pedir-me-ás mais uma vida. Que te viva, aí, além, dentro do teu peito aberto, despojado de qualquer coisa que o faça fraco, tão fraco. A ele me encostarei para ouvi-lo rouco como um dos nossos gemidos sussurrados pela escuridão da noite, quando me tocas, quando nos tocamos. Exigir-me-ás que te faça respirar por entre os meus lábios, que te dê cor através dos meus olhos e de beber pelas minhas mãos. Pedir-me-ás que te veja por entre o tecido que te envolve, a solidão, que o rasgue com os meus dedos. Dedos que te conhecerão todos os dias de novo pela primeira vez, hoje, amanhã e depois. Implorarás que te mate aqui, no meu peito e além, entre as dobras do meu ser quente.
De joelhos suplicarás para que te consuma, como o fogo que lambe a querosene deste soalho, queimando as películas do que um dia seremos. A Quimera dos amantes. Perder-me-ei entre os recantos do teu ser, viajarei pelas tuas veias num fátuo momento, nosso. Como um magnete, me atrais, para me voltar a pisar, e eu, louca de tão pobre de ti, me deixo, me dou, me arrolo nesse teu ínvio coração. Fechado, apenas para mim.
Vivo sob o Sol que me cresta a pele, essa que dizes imaculada, tão pura, demasiado tua, fria ao toque. Tão demasiadamente morta.

Amam-te, dizem, viradas para Norte, de olhos fechados, sem nunca perceberem que(m) veneram. Sem nunca te (tar)dares, sem nunca calares essa cantiga dentro de ti, toada a sons monocórdicos, na corda, além, na tua linha labial, entre os meus dentes. Sinto-te o sabor férreo do sangue e a doçura dura do teu olhar a percorrer-me a linha das costas, como o fazes, na minha desnuda pele, com a ponta dos dedos.
Amordaça-me nas tuas palavras atiradas contra o meu peito, sem cuidado, afiadas para me machucarem, criadas para me amar odiando-me.
Odeia-me.
Ama-me.
Sem (in)diferença.