Julgam-te fé, sabedoria e paz eterna. Essa eternidade que não possuis, ainda assim te julgam para sempre, desde sempre. Pobres, como eu. Perdida entre os teus dedos. Escorro-me entre eles, como areia fina. Perdes-me agora, uma e outra vez. Somente para me colocares no altar, ali, além. Veneras-me, seu pobre. Fazes de mim eternidade. Esta eternidade que trago aqui, além. Dentro de mim, soberba.
Pedir-me-ás mais uma vida. Que te viva, aí, além, dentro do teu peito aberto, despojado de qualquer coisa que o faça fraco, tão fraco. A ele me encostarei para ouvi-lo rouco como um dos nossos gemidos sussurrados pela escuridão da noite, quando me tocas, quando nos tocamos. Exigir-me-ás que te faça respirar por entre os meus lábios, que te dê cor através dos meus olhos e de beber pelas minhas mãos. Pedir-me-ás que te veja por entre o tecido que te envolve, a solidão, que o rasgue com os meus dedos. Dedos que te conhecerão todos os dias de novo pela primeira vez, hoje, amanhã e depois. Implorarás que te mate aqui, no meu peito e além, entre as dobras do meu ser quente.
Vivo sob o Sol que me cresta a pele, essa que dizes imaculada, tão pura, demasiado tua, fria ao toque. Tão demasiadamente morta.
Amam-te, dizem, viradas para Norte, de olhos fechados, sem nunca perceberem que(m) veneram. Sem nunca te (tar)dares, sem nunca calares essa cantiga dentro de ti, toada a sons monocórdicos, na corda, além, na tua linha labial, entre os meus dentes. Sinto-te o sabor férreo do sangue e a doçura dura do teu olhar a percorrer-me a linha das costas, como o fazes, na minha desnuda pele, com a ponta dos dedos.
Amordaça-me nas tuas palavras atiradas contra o meu peito, sem cuidado, afiadas para me machucarem, criadas para me amar odiando-me.
Odeia-me.
Ama-me.
Sem (in)diferença.
