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quarta-feira, junho 30, 2010

Quando a realidade se mistura com o sonho.

Entrei em casa como sempre fiz em todos os finais de tarde desde que dobraste aquela esquina. Mas hoje havia algo diferente, um cheiro que a casa não tinha antes de eu sair. Não era da jarra de flores com as Açucenas brancas nem da Erva-cidreira que tinha colhido de manhã. Era aquele cheiro que tinhas cá deixado meses antes, suspenso em pequenas partículas, até este se desvanecer dois ou três dias depois. Por momentos julguei tratar-se de uma partida do meu cérebro, causado por uma tão espessa camada de saudades que trago sempre em mim. Pensei ainda que estivesse a sonhar, um sonho dentro de outro sonho, mas quando as vi à porta do nosso quarto soube que era verdade. Olhei para dentro e ali estavas tu, deitado, uma perna sobre a cama feita e a outra fora do colchão, dobrada, com o pé pousado no chão. Um braço esticado ao longo do corpo e a outra mão sobre o peito. A camisa estava desabotoada até meio, deixava ver por baixo a t-shirt branca, e ainda tinhas um botão entre dois dedos. Adormeceste antes de acabar de te despir.

Não sei ao certo quanto tempo te olhei a dormir, tão calmo... Até as tuas noites deixaram de ser calmas, entre pesadelos e suores. E ver-te assim dormir sem teres os olhos sob as pálpebras num frenesim constante, fui incapaz de te acordar. Descalcei-me e deixei os meus sapatos à entrada, junto com as tuas botas pretas.
Deitei-me a teu lado e, com cuidado para não te acordar, passei o meu braço sobre o teu peito e encostei a minha boca ao teu pescoço quente. O teu cheiro, sobreposto ao da camisa passada a ferro e ao aftershave, sempre foi o melhor.
"A única coisa que te dou sem demónios", dizes. "Se são teus, és tu. São meus também"

Acordei com cheiro das Açucenas brancas na jarra no móvel do hall de entrada porque, estranhamente, como não é hábito, havia dormido com a porta do quarto ligeiramente aberta.