Powered By Blogger

domingo, junho 06, 2010

= FUTURO =

Sem nunca o perceberes, esgravatas-me a alma como se fosses um animal enjaulado.
Sem nunca me importar deixo que o faças, intermitentemente, como se fossem estes rasgões a minha melhor forma de vida, a mais merecida, aos teus olhos.
Sem sequer ponderares, devoras-me a cada respirar expelido na inconsciência de uma vivência incompleta, quando não te apresentas, te escondes atrás de desculpas, apenas porque um dia não te fui.
Encontro-me neste corrume de novo. Não dividida, simplesmente estagnada. Tudo por mim passa, passam as origens, os meios e os termos. Nada fica, apenas eu permaneço num qualquer vértice entre o que desejo ser, o que sou e o que vês.
Expandes sobre mim a utópica essência dos sentidos. Sem falhas ou rugas, mostrando-me que ainda há poemas por escrever, sobre nós. Frases que ficarão para sempre por dizer, páginas em branco, livros que jamais serão desfolhados, ninguém sentirá o cheiro da tinta nas suas folhas recentemente impressas. Este cheiro tão nosso.
E na volta, voltas a sulcar-me a carne com as tuas unhas, a alma com as tuas acções. Volto a pedir permissão para respirar enquanto me apertas com força contra ti, contra o teu corpo celeste, pontilhado não com a luz emanada das estrelas sobre nós, mas sim com a intensidade com que me desejas, de uma forma tão doentia.
A clarividência que se abeira de mim, mortalmente consumidora de almas perdidas, entre os estados de inconsciência em que me encontro quando estás, leva-me a repudiar os momentos mais simples, por mim guardados.

Quando de manhã, ao acordar primeiro que eu, estás na cozinha a fazer o café, e o seu cheiro me desperta. Vou ter contigo, sem me aperceberes e, por trás abraço-te, colocando-me em bicos de pés para te poder beijar o pescoço. Gosto de te sentir arrepiado. Raras são as vezes em que não te surpreendo. Incrível como há surpresa entre dois corpos que, apesar de separados, são metade um do outro. És a minha melhor metade.
Agora que penso nisto, repudio aquele momento quando ontem, enquanto sentada à beira da cama me calçava para ir trabalhar, sentia os teus olhos recaídos em mim. Fingi não perceber e tu fizeste de conta que continuavas a dormir, fechaste os olhos quando me aproximei de ti e te beijei os lábios sussurrando-te ao ouvido "até logo, meu amor". Ou quando à noite, sentada no sofá lia um livro enquanto te esperava que chegasses do trabalho exausto, como sempre, e com vontade apenas de mim, de nós. Chegas silencioso, esse silêncio que tanto me incomodava de inicio, e com o qual já não vivo. Não é preciso cuspir meia dúzia de coisas sem nexo quando se tem o poder de falar com os olhos, com o corpo quando o encostas a mim, com as mãos e elas me tocam. Chegaste silencioso, sem uma única palavra nos lábios, fechaste-me o livro, sabendo que odeio não marcar a página, perco o fio à meada. Sentiste-me irritada e sorriste. A partir daí fizeste de mim o que a tua imaginação ditou.

Repudio estes momentos de felicidade para que os outros venham à tona. Os outros que me matam.