"Deus criou o homem e viu que este era a prova da sua imperfeição"
Tenho os pés submersos no gelo da água salgada.
A meu lado constroem castelos e criaturas,
dão vida a montes de areia e personagens perdidas.
Trago o corpo e a alma vincados de dias soturnos
e poemas não lidos. Arranquei todos os espelhos
da casa e do quarto. Uma parte ínfima da minha alma
ficou gravada e perdida na face crua do espelho.
Essa parte ínfima foi o estilhaço que rompeu
a continuidade do meu espaço, do meu tempo
e do espasmo que é a criação.
Apago do chão todas as pegadas
de corpos que já não sei,
nomes que esqueci e sorrisos inacabados.
Abro as janelas e arejo o tecido grosso
que forra as camas e os espaços vazios.
Deito-me no chão, o cansaço invisível dos
ossos a rasgar a passividade do meu rosto.
Pressinto a tempestade e o vento.
Pressinto o cinzento e a sede.
Espero por um soluço,
um grito, uma pedra, um vidro, espero
por um tempo e um quadro.

