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quinta-feira, junho 10, 2010

A criação

"Deus criou o homem e viu que este era a prova da sua imperfeição"

Tenho os pés submersos no gelo da água salgada.

A meu lado constroem castelos e criaturas,

dão vida a montes de areia e personagens perdidas.

Trago o corpo e a alma vincados de dias soturnos

e poemas não lidos. Arranquei todos os espelhos

da casa e do quarto. Uma parte ínfima da minha alma

ficou gravada e perdida na face crua do espelho.

Essa parte ínfima foi o estilhaço que rompeu

a continuidade do meu espaço, do meu tempo

e do espasmo que é a criação.

Apago do chão todas as pegadas

de corpos que já não sei,

nomes que esqueci e sorrisos inacabados.

Abro as janelas e arejo o tecido grosso

que forra as camas e os espaços vazios.

Deito-me no chão, o cansaço invisível dos

ossos a rasgar a passividade do meu rosto.

Pressinto a tempestade e o vento.

Pressinto o cinzento e a sede.



Espero por um soluço,

um grito, uma pedra, um vidro, espero

por um tempo e um quadro.