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quinta-feira, junho 17, 2010

Horas V

Enchi o copo depois de saíres. O bordo do copo tinha a marca dos teus lábios e eu num ritual perverso coloquei aí os meus como se te quisesse roubar o beijo que não tenho coragem. Fechei os olhos, como contar-te o prazer quando passei a minha língua no vidro no desejo de te trazer até mim. Irritei-me por não conseguir ter a capacidade racional para te definir um sabor… e a revolta era apenas um eufemismo, porque a razão da irritação deveria ser a irresponsabilidade do pulsar do coração.
Atirei o copo, quase que o parti, talvez – sempre o talvez - na negação da minha fraqueza, na luxúria de um gesto que noutras alturas diria de demente e que somente doente consigo tolerar. E sim, preciso acreditar que estou doente para conseguir outorgar o corpo que me dói e compreender a cura que não pode ser a lógica. Como posso confessar?
À noite consigo colar-te a meu corpo, fazer amor contigo e até consigo ouvir os teus gritos de prazer, mas quando a luz do dia esclarece as horas dos nossos corpos verticais – na distância que nos separa para sempre – tenho a idoneidade de negar-te com a força da certeza da morte dos mortais e julgar-me com a crueldade da Inquisição. A verticalidade das horas recusa-me o prazer do estar contigo e sonega-me a alegria que te sei em estares comigo.