Vens sempre no cair da noite, no fechar do pano, no final da estrada.
Vi-te.
Vejo-te sempre. Nu. Delgado. Os braços abertos numa tentativa vã de abraçar o mundo e uma felicidade e serenidade que perdeste dentro de ti. Os braços abertos numa imagem congelada de um abraço a ti mesmo e ao menino dentro do espelho.
Procuro-te. Procuro-te em mim e sem surpresas encontro-te. Abraças o teu eu que vive em mim.
Pergunto-me. Tantas perguntas. Tantas incertezas. Pergunto-te. Onde está a linha que divide o amor deste sentimento inútil que acalento no peito.
Que nasce em mim. Que emana em ti. Que me devolves, maduro, vermelho, trincado e ainda teu.
As linhas que te cosem no meu regaço libertam-se e amarram-me a ti. Indefinidamente. Penso. Penso que poderia ter feito mil e uma cordas com as quais me resgatarias de dentro do meu coração. Penso que poderia ter-te trazido em mim. Uma poça. De esperma. De suor. De encanto. De olhos vidrados a beberem-te a voz. Enquanto me contas uma estória. Duas histórias. A tua vida inteira. Numa noite. Numa voz quebrada e quente.
Pergunto-me porque estarás aí. Porque não estás aqui. Porque te tirei de mim, uma criança indefesa e necessitada. E ainda assim um homem. Um. Homem.Rasguei-te. Rasgo-te todas as noites para beber de ti o néctar da vida. E tu amamentas-me. De curiosidades.
Revelas-te. Escondes-te. Brincas com os meus cabelos.
A noite é célere e apaga de mim as tuas pegadas. Deixa-me entregue à rotina de viver uma vida da outra que mora em mim. A noite é tão célere.
Apaga-te de mim e vive. Vive em peitos que não os meus, cresce em ventres que não o meu, suga lábios que não os meus, nasce de outro alguém que não eu...
Não eu.
Nunca sou eu quando não estou em ti.
