Amanhã, quando te beijar pela milésima vez, embora pareça sempre a primeira, saberei que não será a última. Trarei o teu sabor para me lembrar de ti nas tuas horas ausentes. Continuarás a assustar-me, porque de tanto que te vou querer, o mesmo tanto que temerei por te perder. Os planos não serão feitos porque têm de ser feitos, mas sim porque nos será necessário. Discordarás de mim, enervado, para que eu te sorria ainda fascinada pela forma como te irrito. Seremos vítimas da nossa impetuosidade quando, chegados a casa, o caminho entre a porta de entrada e o seu interior será demasiado extenso para nos aguentarmos. Botões saltarão, risos e gemidos ecoarão pelas paredes da nossa casa quando me encostares a cada uma delas.
Amanhã de manhã, quero que acordes com o cheiro a café que estarei a fazer na cozinha, de pés descalços no chão frio, lembrando-me que é Inverno, e terás o cuidado de me acautelar que me poderei constipar. De lâmina em punho irás desfazer a barba com a porta entreaberta para que eu te possa olhar. Beijarei a tua face macia enquanto te ajeito o colarinho da camisa. Amanhã, quando eu for a mãe dos teus filhos, continuarei a acordar mais cedo do que tu para vos olhar e pensar no dia em que escrevi tudo isto, nunca julgando que se iria concretizar, mas desejando-o.
Amanhã, mas só amanhã. Hoje continuo sem dormir; tu ainda não estás aqui; ainda não me imaginas tua mulher nem a mãe dos teus filhos. Amanhã, vamos esperar por amanhã.
