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segunda-feira, setembro 18, 2006

PORTO


PORTO

A ponte é apenas

prostituta

Da oca ideia de ti,


Mas tu

Já não te mostras assim,

Tu és pedaço de sombra

e silêncio adivinhado


Num cimbalino a escaldar.


Tu és

Todos os bairros e ilhas,

A Foz e o Campo Alegre,

O Palácio e a Rotunda,

Todos os mártires da pátria,

O Infante, as Fontaínhas,

Sá da Bandeira, Bonfim,

Antas, Maia e Rio Tinto,

Gondomar e Matosinhos,

ou Vila Nova de Gaia.


Tu és mais meu ao nascer,

Serás mais meu ao morrer.


Mas afogado no Douro,

Agricultando-te esquinas,

Arando a pedra e a sombra,

Cultivando-te o mistério,


Vim da Ribeira para cima,

Perdendo o ar em Mouzinho,

E encostei-me às Cardosas

Para te olhar o focinho,


O tal salão de visitas,

Que os Aliados cederam

Ao Universo.


Ficas-me imerso

Na carne,

Ficas perverso

No sangue,

Fervendo o sal do sotaque,


Fazes doer a distância

Quando me afasto de ti,

E fico longe do verso,


Então, descolo do chão,

Embriago-me em calão,

Palavras largas, ovais,


E em Rabelo, a saudade

Vem ao poema lembrar


Que um “carago” dito assim,

Na ausência da cidade,

Põe um tripeiro a chorar.


Amamos a insultar.


Por isso, não há cicuta

Nem desvio de conduta,


Quando os comboios apitam

E em Campanhã te gritam


“Meu Porto filho da puta!”