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quinta-feira, março 31, 2011

Adeus

Corria, espalhando-me por entre os espaços das pedras da calçada, demasiado perdida para me ter, enquanto me olhavas lá do alto, como um condor observa a sua presa, pacientemente à espera que fechasse os olhos. Que os fechasse a tudo o resto e te visse apenas a ti. Desceste do alto do teu miradoiro e a meu lado de acomodaste. Olhaste-me sem que nunca te encarasse. Contaste-me histórias na base do meu tronco e fizeste contas imaginárias sobre os meus lábios, sem eu o notar.


Lambeste-me os dedos depois de eu os passar pelas minhas feridas abertas, rindo do meu prazer pela dor, como se te quisesses infectar. De mim. Sulcaste uma cova com o teu nome, junto da minha, tão certa, mortandade sombria. Sem nunca te ver, dei. Entreguei o que tinha e o que não podia, porque eras tu. Tudo, acima do Nada que sempre vi. Trouxeste contigo dormidas extasiantes e acordares extenuantes, sem que jamais te sentisse por excesso. Tocaste-me, então, em pequenas ondas, sem nunca me sentir o arrepio da pele. Construiste-te dentro de mim, sem intenções de cá viver. Eu é que nunca o quis saber. Tinha-te como te tinha, era-me suficiente.

Os dias não chegavam quando te sabia de cor, como uma rima infantil, uma vez aprendida, jamais esquecida. Inocentemente, (e)levei-te à força de braços e negações várias, até onde não te poderia (e)levar. Potência máxima. As noites quentes queimavam-me a pele e palavras tuas estancavam-me a falta de vida na ponta dos dedos. Fugia-te quanto te fechavas sobre mim, querendo não te ter mais do que te possuía, numa ânsia doentia de te sentir nos meus meandros. Doce veneno.

Esse mesmo veneno que me corta agora, querendo esconder dentro de mim o que não queres sentir. Retirando-me a vida que já não possuo, fazes-te sanguinário do meu corpo. Coses os lábios com linhas escarlate e agulhas enferrujadas, para que não te entre. Não mais. Amarras-me nos gritos dos teus silêncios. Pousas os ferros quentes com que me marcavas noite após noite, quando te gritava de prazer apenas dentro da tua cabeça e ao canto da tua boca. Rainha. Tua. Tão tua fui.

Vês, um adeus? Porque não o vejo eu?