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terça-feira, maio 04, 2010

Psique lilás


Sinto a intensidade das palavras a rasgarem-me as veias.
Sinto o corpo tremente de prazer antecipado (orgasmo intenso da escrita).
Água quente na pele branca. Água quente no cabelo escuro...
Os olhos perdidos no horizonte vago.
Abro os lábios para proferir as palavras. Respiro. Passo a língua, molho-os.
Suspiro.
Sinto as palavras... A emergirem dos olhos, a cairem no chão lavado do meu quarto.
A semearem-se no espaço vazio entre a cama e o armário.
Sinto o teu calor mesmo a meu lado.
Chego-me para ti.
Seguro-te pela cintura.
Dormes.
Sinto as palavras, o rodopio que é ter a boca a saber a maresia.
Pergunto-me o que sonhará a tua mente na escuridão da noite.
Pergunto-me o que serás tu, dentro de ti mesmo.
Dormes.
Aproximo os meus lábios dos teus.
Espero.
Sinto a tua respiração compassada.
Espero.
Dormes.
Aproximo mais.
Deixo que a minha respiração se cole na tua.
Estremeço na antecipação do prazer do beijo roubado.
Dormes.
Deixo-me cair na cama.
Abraço-te de novo.
Fecho os olhos. Daqui a pouco virão os sonhos.
A loucura dos meus mundos sem regras.
Pedaços da minha psique lilás.
Dormes.
Durmo.

segunda-feira, maio 03, 2010

A simplicidade da ausência



A simplicidade das palavras é um labirinto na minha mente.
Uma espada cravada no meu peito.
É a tua cabeça no meu peito.
Mil e uma pessoas entre nós a separar-nos, a puxarem-te dolorosamente para longe.

A simplicidade de um beijo é a barca onde repousam os mais inconfessáveis

segredos.
(eu aqui perdida em ti, a sonhar-te. os lábios entreabertos a sussurrar rezas antigas.)
A simplicidade de um abraço é um mar de enganos e teias que teces de volta de

mim. Enganas-me.
Enganas-te. Enganas. Ganas... Ganas de te agarrar e te forçar de alguma forma a

expelir o suspiro final que separa a verdade da mentira. O sonho da realidade.
A cor do negro. O preenchimento do vazio.

A simplicidade de ser eu enquanto tento fugir da tua respiração pesada.

("amas-me. liberta-se de cada poro teu" sorriu ele).

A simplicidade de te convencer da minha ausência da fotografia.
Fotografo-te. De novo. De novo. Click. Click...
A minha ausência.
A simplicidade da ausência.
De ti.

Impossibilidade de ser diferente



A impossibilidade de superar tudo através da escrita sufoca-me. A escrita não me salva da desilusão de não atingir os

patamares que imponho a mim mesma.
A impossibilidade de me superar a mim mesma sufoca-me.
Como ser alguém que está para além dos limites da carne?
Para além dos limites humanos?
Queria forçar os meus pés a percorrem caminhos meus, jamais percorridos por todos os outros. Queria atirar o meu

corpo num imenso nada inexplorado e boiar, boiar nesse limbo de inexistência física e psicológica até esta dor intensa

parar de dilacerar o meu peito.
Que me importam os braços que me estreitam se eu, eu, só eu, lanço um grito na noite de frustração e desespero?
Que me importam as palavras apaziguadoras da intensa destruição que espalho na minha psique, se eu, eu que tudo

construí me sinto impelida a destruir-me e rasgar-me sem parar?
A impossibilidade de ser diferente, nascer diferente, falar diferente, sufoca-me.
Tudo o que acreditei até ao momento desmoronou-se a meus pés.
Tudo o que pensei ser um dado adquirido mudou na minha vida. Mudou, simplesmente.
Quem sou eu agora? Quem é o ser que me olha assustado, mudo do espelho?
Quem tem as respostas às minhas perguntas? Acredito ser eu e procuro, procuro, cada vez mais e mais fundo e nada.

Nada. Imenso nada. Sempre o horrível nada.
A impossibilidade de acordar amanhã num sítio diferente, mais belo, mais colorido, mais meu, sufoca-me.
Onde estás tu quando preciso de ti aqui? Onde estão os teus dedos esguios que não me limpam as lágrimas, não me

apertam contra o teu peito enquanto me apagam as palavras, os suspiros, as mágoas?
Onde estás em todos os momentos em que sufoco pelas impossibilidades inerentes a ser eu?
Neste espaço limitado que é o meu ser, a minh'alma contorce-se na angústia de ser quem sou...
Hoje mais que todos os outros dias...
Hoje fico sozinha a afogar-me na impossibilidade de ser diferente.

Do outro lado do espelho



E quando as palavras não significam nada?
Quando procuramos uma saída perfeita
para a nossa incompreensão dos factos
que se sucedem na nossa vida
em espiral. A sempre eterna
espiral.

E quando as palavras não significam nada
para além de sílabas confusas e perdidas
na minha mente ferida.
Uma imensão solidão a crescer-me no ventre
a trespassar-me os olhos leitosos.

Tacteio as paredes suadas, mal cheirosas,
procuro os sinais, a direcção, a saída.
As palavras não significam nada.
Não trazem nada de novo.
Não abrem as portas que tu fechas.
Seguro-as na mão. Chaves inúteis
da minha psique.

Livro aberto de insegurança,
medos lodosos, monstros amestrados
a roerem-me os ossos,
sonhos desfeitos,
peles trocadas à força pela vida.
A minha voz a ecoar distorcida,
palavras ocas, velhas e novas.
Decisões jamais tomadas
mas assumidas perante ti.

Encosto-me ao espelho, ofegante, e sei,
sei dolorosamente que do outro lado
estás tu, encostado, ofegante,
perdido nos teus medos particulares, os teus
monstros, os teus ossos, o teu livro,
quase sinto a tua respiração.
Grito o teu nome, grito, grito até à loucura.

(Quebro o espelho.
Estilhaços por toda a parte.
Desespero de te querer fora de mim
e simultaneamente dentro.
Parto.)

Quando as palavras são pouco
para expressar tudo o que sentimos
no mais íntimo do nosso ser
sentamo-nos a tecer o silêncio.
O silêncio é a comunicação última.
Abraço o silêncio.
Perfumo-o.
Trago-o em mim.

És o silêncio espelhado no lago escuro
da minha mente.

sábado, maio 01, 2010

Irreal

O que fazemos quando a moral, tudo o que nos ensinaram e aprendemos enquanto crianças subitamente se torna tão torpemente irreal?
Quando o corpo pede e a alma se atira num abismo de frieza e se esconde de nós?
O que fazemos quando tudo o que restam são incógnitas, becos, amarguras?
O que fazemos quando o destino surge tatuado nas ruas, nas falésias, nos pedaços de nós no mundo?
Tudo o que quero é não querer desta forma.
Ser linear e simplista. Quero acreditar e ter fé e ser banal.
Nestes dias, tudo o que quero é não ser Eu.