segunda-feira, maio 03, 2010
Do outro lado do espelho
E quando as palavras não significam nada?
Quando procuramos uma saída perfeita
para a nossa incompreensão dos factos
que se sucedem na nossa vida
em espiral. A sempre eterna
espiral.
E quando as palavras não significam nada
para além de sílabas confusas e perdidas
na minha mente ferida.
Uma imensão solidão a crescer-me no ventre
a trespassar-me os olhos leitosos.
Tacteio as paredes suadas, mal cheirosas,
procuro os sinais, a direcção, a saída.
As palavras não significam nada.
Não trazem nada de novo.
Não abrem as portas que tu fechas.
Seguro-as na mão. Chaves inúteis
da minha psique.
Livro aberto de insegurança,
medos lodosos, monstros amestrados
a roerem-me os ossos,
sonhos desfeitos,
peles trocadas à força pela vida.
A minha voz a ecoar distorcida,
palavras ocas, velhas e novas.
Decisões jamais tomadas
mas assumidas perante ti.
Encosto-me ao espelho, ofegante, e sei,
sei dolorosamente que do outro lado
estás tu, encostado, ofegante,
perdido nos teus medos particulares, os teus
monstros, os teus ossos, o teu livro,
quase sinto a tua respiração.
Grito o teu nome, grito, grito até à loucura.
(Quebro o espelho.
Estilhaços por toda a parte.
Desespero de te querer fora de mim
e simultaneamente dentro.
Parto.)
Quando as palavras são pouco
para expressar tudo o que sentimos
no mais íntimo do nosso ser
sentamo-nos a tecer o silêncio.
O silêncio é a comunicação última.
Abraço o silêncio.
Perfumo-o.
Trago-o em mim.
És o silêncio espelhado no lago escuro
da minha mente.

