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sábado, maio 29, 2010

Prazer oco



Deitada na cama olho para o armário com uma porta mal
fechada. Lá dentro, pendurado, um cabide vazio.
E penso o quanto eu sou aquele cabide.
Vazia, à espera que me envolvam. Não com roupa.
A envolvência que me faz falta, e pela qual me mantenho
aqui deitada, é a tua.
Lanço um último olhar ao armário e fecho os olhos.

Pouco depois sinto o teu corpo quedar-se a meu lado, sem
peso, áureo.
Temo abrir os olhos, então não o faço.
Encosto-me a ti e o choque percorre o meu corpo.
Electrizante.
Electrizas-me.
Entrelaço a minha perna na tua, desnudas.
A minha mão (per)corre-te o peito, despidos.
Encosto a minha face à linha do teu queixo, numa ânsia
animal de te retirar todo e qualquer cheiro, guardá-lo
para mim, só para mim.
Esse cheiro que não consigo decifrar.

Às vezes forte, sinto-te o odor a carvalhos, ciprestes e
salgueiros, quando te tornas imponente e me tomas nos
teus braços, com uma força desmedida, como eu quero,
sem pedires perdão.
Outras tantas trazes contigo o perfume das flores das
amendoeiras, doces, níveas, quando me segredas ao
ouvido como te curo dos demónios que te atormentam.
Mas hoje trazes o cheiro das laranjeiras floridas. Sabes
como gosto, e ao passares por elas quando entraste pelo
portão do quintal, não resististe a tocar-lhes e trazê-las
até aos meus sentidos.

Cheiro-te, inspiro profundamente.
Carregas em ti o cheiro da rua, o cheiro que o vento te
deposita e te marca ao beijar-te a pele, a tua pele,
que é tão minha.
Cheiro-te e tento guardá-lo para memória futura, para
quando tiveres partido novamente.
Beijo-te o queixo e desço até ao pescoço.
Sinto-te a pele do peito eriçada, um arrepio, e um suspirar
mal contido. Expeles o ar com ganas de quem não o precisa,
fazes pouco dele, tens-me a mim, respiras através de mim.
Beijo-te a pele queimada pelo sol, vivida de dores, perdida
de amores.
Brinco com uma mexa do teu cabelo, rodopio-o entre os
meus dedos e sem nunca abrir os olhos sinto a te(n)são que
te percorre cada recanto do teu ser, mais que físico.
A mão, outrora no teu desejoso peito, desceu, desceu...
Desceu perigosamente.
A perna continua entrelaçada na tua, apertada com força,
num apetite recaído acima das minhas coxas,
pouco acima das minhas coxas...

Então o teu cheiro muda, assim que, na eminência de um
pico de êxtase mortal, giras o teu corpo sobre si mesmo e
me apertas com a tal força mal calculada.
"Descontrola-te", peço-te baixinho, quase num sussurro,
"Descontrola-te, descontrola-me, anda!"
Sem pedir licença nem esperar nova ordem, afastas-me as
pernas com o joelho.
Cobres-me com o teu corpo, a tua pele torna-se extensão
da minha, enquanto te fazes convidado do meu corpo.
Violentamente adocicado, és.
Irremediavelmente perdida por ti, sou.
Peço-te que o digas, "Quero que o digas, diz!"
Entre um balanço e outro a tua boca abre-se para meia dúzia
de palavras apenas "Dás-me uma tesão louca, minha doida..."

Na loucura de assistir ao prazer passar-te pelo rosto,
abro os olhos.
Em vez da tua face o que encontro é a porta do armário
entreaberta e o cabide ainda vazio.
Dou-me conta da minha pesada respiração e acordo do
pensamento inconsciente em que havia mergulhado.
As minhas mãos... uma aperta, de forma dolorosa, várias
madeixas dos meus rebeldes e fartos caracóis.
A outra perdeu-se, entre calores e humidade, acima das coxas...
muito pouco acima da linha das coxas...