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quarta-feira, maio 05, 2010

Os teus pés percorrem, hoje, caminhos que a mim já me cansaram



Se me queres ensinar o valor de uma lágrima fá-lo. Mas não me grites o quanto dói ser diferente, o quanto dói ser tão igual e, no entanto, desejar a diferença do fundo do coração.
Se tentas, ainda que em vão, provar-me a tua miséria, o teu infortúnio, então ergue-te e canta-mo do alto do orgulho de se ter atravessado a nado sem sequer pisar uma ponte.

Mas não, isso não, não me enchas de palavras e falta de atitudes, não me tentes nem me atires aos pés cansados, teorias de solidão e amargura.
Porque neste mundo ninguém conhece a solidão de estar tão só no meio de tanta gente, como eu.
Não procures em mim compadecimento e compreensão. De mim só ouvirás palavras de ordem: "levanta-te, ergue-te, atira-te de um penhasco mas vive...".
Fico à espera que te suicides de uma vez ou que aprendas a morder a vida com raiva e com desfaçatez.

Se procuras em mim olhares de piedade e conforto... enganas-te. Eu sou aquela que nunca te irá abraçar o corpo mole e incitar-te à preguiça, ao desmazelo, à cegueira com olhos vivos e não usados.
Sou, isso sim, aquela que te empurra, te esbofeteia, te grita, te incita, te atira do penhasco se tu não te atirares por ti mesmo... Aprende a voar de uma vez, porra!
Cansas-me os cansaços que me restam depois de anos a mastigar o próprio infortúnio.
Eu isolei-me, eu rasguei os laços de amizade e pseudo-amizade, eu gritei e chorei e mortifiquei-me e com isso a doença ganhou-me e alimentou-se de mim até eu me encolher de dor e rezar, rezar, rezar por piedade e colo de Mãe.
Hoje, erguida, renascida, controlada, conformada com os desaires do destino cuspo nos dias e memórias de fraqueza...
Não... a auto-piedade não nos leva a lado nenhum. Deitarmo-nos numa cama a morrer, a cheirar a nossa própria podridão só nos leva aos limiares da loucura.
Estive doente de corpo e de alma. Mas ESCOLHI continuar. Continuar sempre, pisar os meus próprios dejectos, rir-me do meu fado e ainda assim continuar.
A vida são meras espirais de ciclos mais ou menos longos.
Ciclos sagrados que tu vês passar sem lhes tomar o sabor...

Por isso se esperas que te abrace e te conforte, desculpa, não o farei.
Mas puxo-te o braço, seguro-te o corpo, amparo-te a queda, sorrio-te em noites escuras, embalo-te os pesadelos e beijo-te a fronte nos momentos de desilusão.
Mas piedade, não.
A piedade morreu-me nas noites em que gritei sufocada pela dor, à espera de uma mão que não vinha, um colo que nunca chegou... um beijo que nunca aconteceu.