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sábado, maio 08, 2010

A espiral



Vi-te partir numa noite escura
de Setembro. Levavas as mãos
escondidas nos bolsos,
os olhos vagos e crispantes.
Vi-te partir. Soube instantaneamente
que a rota de colisão estava permanentemente
traçada nos nossos destinos.
Escondi o rosto por trás da máscara negra
da imponente solidão, escondi
todos os poemas que te escrevi,
rasguei todas as fotografias em que
nunca constaste.
Acordei numa manhã cinza de Setembro
e tu ainda não tinhas chegado.
Virei o corpo cansado e espreitei o rosto
do menino que és tu deitado a meu lado.
Abraçou-me.
Sei que enquanto ele aqui estiver,
estarás enlouquecedouramente
perto.
Quis oferecer-lhe as minhas lágrimas
liláses, deitar-me no seu colo,
ensinar-lhe os erros amargos da minha vida,
quis cantar-lhe poemas sem voz,
quis esquecer-me de mim,
quis romper o meu coração.
Eu estou aqui. Ainda te amo,
disse ele baixinho encostado
ao meu rosto. Ainda me amo...
A noite veio e trouxe-te nu e
violentado. Seguraste-me as mãos,
apalpaste os meus olhos, cego.
Quiseste saber, febril, porque ficas para trás
sempre que o teu corpo se ausenta de mim.
E eu... já não te sei devolver.