Porque me é mais fácil ser fria com quem gosto do que demonstrar que gosto.
Talvez seja simples. Não quero que me magoem outra vez. Basta que me façam uma, depois disso, e mesmo que seja importante para mim, é tudo deitado por terra. Antes fazer-me sofrer a mim própria do que vir um corpo estranho fazer esse mesmo trabalho uma e outra vez. Os sentimentos não são encontros de fim-de-semana e não estão confinados a determinados dias do mês. Ou se gosta sempre ou não. Não existe o "hoje gosto de ti, mas amanhã não me dizes nada". E não tenho que dizer nada a ninguém, ou provocar o que quer que seja. Prefiro até não o fazer, quando essa linha é ultrapassada, o respeito perde-se. Então deixo de ser uma pessoa para me tornar um número.
Também eu me afasto de quem gosto, faço-o hoje, fi-lo ontem, fá-lo-ei amanhã, mas pelo menos nunca o desenrolei à boca dos lábios, porque sei que o afastamento é inevitável, guardo para mim.
Afasto-me porque me assustam, sem me causarem medo. São duas coisas diferentes: estarmos assustados e termos medo. Tenho a (ir)racionalidade para admitir que nada me provoca medo, mas facilmente as pessoas me assustam. Afasto-me porque destruí hipóteses únicas, no novelo de um daqueles pensamentos que ele não poderá estar a falar a sério. Dei-as as outros, que não se assustam facilmente.
E só resta isto: Continuarei idiota, a ser fria com quem gosto; a falar do que não deveria ter feito; e os que não se assustam a viver o que deveria ser
