O dia amanheceu cinzento. Devolvi-te.Segurei a tua mão pequenina e dei-te ao pedaço que te perdeu.Eras tu e não eras tu.Tu nunca és tu dentro de ti mesmo.Nem dentro de mim.Tu nunca és tu.-Empurrei-te para dentro de ti mesmo.Vomitei-te toda a noite nos lençóis, na cama, na ausência.Quem sou eu dentro da minha solidão?-És a minha droga.E eu... não te posso mais ter dentro das minhas veias.Deixei-te nas mãos.Nas tuas mãos.Nas tuas mãos quedas junto ao corpo.Murmurei-te: "estás aqui. o teu pedaço que te morre todos os dias. que eu renasci todos os dias. que alimentei da minha seiva e do meu sangue e dos meus olhos."-És tu sem seres tu.Odeio-te...E esse ódio rasga-me por dentro rebenta-me as veias.-Quem sou eu dentro de mim?Sozinha...-Abandonei-te... Mas de noite estendo os braços para te abraçar e te acariciar os cabelos suaves de criança junto a mim."não me deixes aqui...aqui sozinha.não me deixes...".Eu não sei o que é o amor.-Abriste os lábios como se fosses dizer alguma coisa.Mas não disseste.Tu nunca dizes nada quando te abandono.E eu deixo-te todos os diase volto de manhã a mim mesma.Aqui está frio. Ainda mais frio do que estava dentro de ti.
Aqui estou sozinha. Não posso apertar-te a mão quando me dizes"tenho medo da solidão. tenho medo de te destruir."Vou-te contar um segredo,principezinho.Eu destrui-me a mim mesma.
Onde estás agora, principezinho,não sei adivinhar.Só sei que tenho a garganta apertada de lágrimas.Porque de alguma forma estúpida só tu me conheces.
Que merda é o amor? Sabes-me dizer?Porque eu quis descobrir e abri uma fenda no coração por onde saíste tu."Não posso ter-te aqui" gemi eu.E vim embora.
O mundo entrou-me pela garganta.Mora-me no peito.O mundo inteiro menos tu que tiveste comigo demasiado tempo.
Não digas nada... porque se disseres ainda posso trair-me e pedir-te que voltes para dentro de mim,posso alimentar-te de novo do meu sangue.
Não digas adeus.Nunca tive jeito para despedidas.Eu não te amo.Nem sei o que é o amor.A tua criança é como um filho tenro que tive dentro do peito e que não sei,não sei deixar voar...
Amanhã quando amanhecer vou preencher o teu espaço com qualquer coisa que ainda não encontrei.Sinto-te a falta.Afinal quem foi a criança dentro de quem?Tu dentro de mim? Ou eu dentro de ti?
Amanhã quando amanhecer digo-te adeus.
