Hoje mesmo,e porque o estado de ânsiedade apodera-se de mim de uma forma digna de momento,páro,penso e tento ver onde falhei...
"A ética é estar à altura do que nos acontece".
Será que estive à altura?
Será que estou à altura?
Fiz o que devia fazer, alterei à minha volta aquilo que estava errado e que senti que podia contribuir para alterar?
Com o que me aconteceu, com o que sou, com o que sei,com o que vivi, o que é que fiz com o que achei que era injusto?
Estas são, de facto, questões centrais para cada um de nós, a que, ao longo da nossa vida e das nossas diferentes circunstâncias, vamos procurando dar respostas.
Ao passarmos, como doentes, pelos Serviços de Oncologia, ao vivermos e acompanharmos todas aquelas situações de sofrimento, de angústia, por vezes de injustiça social e falta de meios, o que poderiamos fazer com o que nos era dado viver?
Sobretudo, como poderiamos dar um sentido, para nós e para os outros, a isso que nos acontecia?Quantos dos saudáveis seres humanos sabem quantificar o sofrimento daquelas mulheres vítimas do cancro ?Não sabem….têm uma vaga ideia, por o que ouvem, pelos testemunhos, por uma relação mais próxima, etc.
É assim, de uma forma suave, num misto profissional e humano, reflectindo algum nervosismo, próprio de um ser humano que tem uma notícia desagradável a transmitir a outro numa pequena sala, três médicas me informavam da razão de ter estado, por dois períodos,e um “eterno” silêncio invadiu a atmosfera, quase parecendo poder-se tocar, tão forte era. Enquanto essas palavras teimavam em ecoar, reparei que todos os olhos estavam virados para mim, enquanto os meus procuravam encontrar mais palavras que me pudessem transmitir algo. O quê, não sei…, apenas algo. Já na rua, e apenas aí, uma enorme raiva apoderou-se de mim. Não pela notícia, não por naquele momento não conseguir entender o certo e o errado, valores que até então me pareciam fáceis de separar. Não, a raiva que senti naquele momento, foi por ter descoberto naquela altura qual o motivo que me tinha levado a perder muitas da capacidade de raciocínio e resistência, levando-me a uma debilidade quase inconsciente.
Foi essa a raiva que ali explodiu. E naquele instante senti as lágrimas molhando os meus olhos. Era a raiva por verificar que os valores da condição humana de pouco valem, que dignidade muitas vezes não passa de uma simples palavra de dicionário.
“Quem pensa em desistir, já desistiu antes de começar”.
Tentando esquecer o ruído de todas as portas que se fecham naquele infinito corredor,mas tentando relembrar que ali encontrei as forças que tive naqueles momentos mais difíceis tento aplicar em cada novo dia que vem amanha, ao mesmo tempo que tento oferecê-las e transmitir a quem por vezes me procura,com olhares piedosos,serei eu a pessoa que desistiu,serei eu a pessoa que preparada estará para recomeçar uma luta sem oportunidade de alterar a data...Será...
Depois começaram a aparecer outros sintomas como fraqueza, tonturas, muito cansaço, o que me levou a ir ao hospital, pensando que apenas duma gripe se tratava. Mas não foram estas as notícias que recebi... depois de ser feito um diagnóstico...
“Até à próxima”
