
Existe algo dentro de mim a querer sair. Um demónio que precisa de ser exorcizado; quero sussurar-te ao ouvido a minha verdade. Falta-me a coragem de o fazer e, por isso, escondo-me atrás de enigmas e palavras vagas. Como te disse, não o faço por mal, é apenas o meu medo de me veres. Olho para ti e lembro-me de nós sentados no sofá; olhaste para mim e disseste "é pena..." e disseste que "um dia, talvez". E disseste mais do que isso, com o teu silêncio. Gritaste com o teu olhar "Ajuda-me" quando me disseste "não estou bem".Oh, e como me enganaste; imaginei-te, por momentos, num pedestal em que, finalmente, eras feliz; estavas óptimo, já saias mais com as pessoas, ias a muitos sítios e tinhas companheiros. E recordo-me do teu sorriso dos braços e dos abraços.
"O ciúme é o ódio e o medo. É ver um rosto a sorrir e querer esmagar esse rosto e essa cabeça que sorri com uma pedra, querer pousar essa cabeça no chão e largar-lhe em cima uma pedra pesada, querer ver uma pedra esmagar essa cabeça, deixar uma pedra cair e vê-la partir esse crânio, vê-la partir os dentes e o sorriso todo, os olhos a furarem-se como gemas e ver espalhar-se no chão tudo o que estava dentro da cabeça: o sangue, os miolos desfeitos, pedaços de osso e cartilagem."
Vejo-te a olhar para mim, com os teus olhos húmidos, prestes a largar lágrimas, e sinto-me gritar, em silêncio, que ainda gostas de mim, que "sou a tua metade". Os actos não correspondem ao sentimento.E eu; acho que era isto que querias saber. Sim, mesmo depois de ter querido enterrar-te bem no fundo da minha alma, ainda te acho o meu anjo perdido. Ainda fico preocupada quando vais para casa, ou se estás bem. Ainda fico acordada a pensar no estarás a fazer naquele momento. E também sofro por isso, porque agora tens uma outra vida, uma nova maneira de estar. Espero que ainda exista algum espaço para mim.
